Reencontro
Há muito que o perdera de vista mas soube-me bem revê-lo.
O Leónidas detestava a sua graça – “nome de inspector”, dizia,
mas era generoso, desengonçado e directo:
beirão como eu, mas não como eu aculturado de lisboeta;
Abraçámo-nos e falámos muito, sem recordações lamechas, centrados no hoje e no amanhã:
o Leónidas, já não comunista porque ainda comunista,
eu, ainda socialista porque já não socialista.
Essa a grande “diferença” que nos faz próximos e quase irmãos.
Um dia, estaremos outar vez nas barricadas.
Longe dos outros, ainda iguais a ontem.
Soneto do amor difícil
A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa…
Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.
Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.
E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.
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pietro zuchetti
